terça-feira, dezembro 05, 2006

Aprender a dançar



dedicado a Penha de Souza


Mais que uma excelente instrutora, uma mestra é o arquétipo da mãe. Não se limita a transmitir conhecimentos a seus pupilos: proporciona-lhes, a partir da sua própria, uma experiência que transcende o domínio técnico da disciplina que professa. Nutre sua existência. Encoraja-os a crescer, desenvolver, e reconhecer suas potencialidades únicas, ampara suas quedas, mas também aponta inconsistências a serem melhor trabalhadas, e exige, sem falsa brandura, dedicação e esforço para transpor os limites do cômodo e do medíocre, não como juiz ou feitor de escravos, mas como o clown que suscitando o riso faz ver de modo cortante a profunda fragilidade da condição humana. Não carece de ostentação ou insinuação. É um ser humano com erros e acertos, alegrias e tormentos como qualquer outro, cujo grau de consciência, no entanto, o transforma em referência fundamental a quem por seu caminho passa. E desse encontro em diante não é possível voltar ou continuar a viver na superfície daquilo a que antes se podia chamar vida. O que se transforma é a nossa compreensão, nossa visão de mundo, nosso modo de estar e ser.
Para compreender a dança, e particularmente a técnica de Martha Graham, é preciso desenvolver, além da espiralada consciência corporal, a coragem de vivenciar profundamente a angústia e o prazer de estar vivo. Não há como decifrar esse código, assim como não é possível fazer arte de espécie alguma, sem a experiência do tesão e da dor. E essa dimensão do dançar se descortina àqueles que ousam mergulhar em si mesmos para além do espelho, numa busca incessante de apreender e fluir com o sentimento do corpo, que "inclui e é o significado, a idéia mestra, e inclui e é a alma", nas palavras do poeta Walt Withman.
Quando despertamos para o movimento do universo em cada um de nós, é disso que se trata: de transcender o espelho. E é isso que Penha de Souza vem fazendo ao longo de sua vida, despertando consciências que são corpos e universos. Espirais. Movimento.
É um enorme privilégio aprender de Martha Graham a Yin e Yang através de Penha de Souza e seu legado artístico, e uma grande responsabilidade fazer jus a isso como artista. Não encontro adjetivos, superlativos ou definições à altura da humanidade de Penha, nem tampouco do prazer de ter meu corpo - minha vida - tocado por essa grande mulher. Talvez a melhor expressão e síntese do que estou tentando dizer com tantas palavras, e que também represente o sentimento de meus companheiros de aprendizado, seja:
- Toda gratidão e respeito a você, Penha, mestra querida. E o mais profundo amor à pessoa maravilhosa e íntegra que você é, e nos incita a ser.

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