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domingo, julho 04, 2021

Live no Armazém de Quinquilharias e Utopias

Salve, minha gente!

Domingo dia 11/07 às 16h pelo GoogleMeet vou fazer uma live musical no Armazém de Quinquilharias e Utopias, com Paulo de Carvalho. Vem comigo! Para participar mande uma mensagem pelo messenger ou insta @anabelica ou no @quinquilhariaseutopias pra receber o link. 

O apoio à artista sugerido é a partir de R$20 no pix anabelica@yahoo.com    (sem .br)

Espero vocês!



quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Oficina de Performance


Ministrarei a oficina na

Casa de Cultura Cora Coralina
De 17/fev a 15/jun
4ªs feiras das 15h às 18h
Inscrições no local - oficina gratuita
RUA SANT'ANNA 201  (Altura 2010 AV. NOSSA SENHORA DO SABARA)
TEL56310740

Oficina de iniciação à performance, com princípios da arte do movimento, sensibilização, expressão, e música corporal, propondo uma investigação sobre as origens culturais dos participantes, contemplando a singularidade de cada pessoa, e valorizando o coletivo em sua expressão artística plural.
O corpo é a matriz de nossa identidade/afetividade, caminho de todo processo de aprendizagem e construçao da personalidade, manifesto no modo como cada pessoa interage com o outro e os contextos pelos quais transita, através de seus gestos, suas entonações na fala, seu olhar, e uma gama enorme de sinais não verbais que reverberam simplesmente com sua presença. É também no corpo que trazemos um mapa afetivo/social/cultural de nossas origens ancestrais étnicas, e da cultura de nossos antepassados, que se revelam de forma singular em cada pessoa, em estreita relação com o contexto em que cresceu.
O processo de descoberta e apropriação da linguagem artística embasada na corporeidade proporciona uma oportunidade para nos percebermos sob novas perspectivas, desvendando camadas de sensibilidade além dos estereótipos e convenções, alimentando uma noção de EU único, singular e contextualizado, como um valor a partir do qual nos relacionamos com o mundo e com os outros. Daí podem nascer reflexões, ações, poemas, danças, expressões plásticas, músicas, carregadas desse novo sentido.
Expandindo a experiência para além dos limites da sala como espaço nuclear, o mapeamento do LUGAR, e a expeimentação dos espaços ao redor, nos possibilita refletir e criar, numa interação direta com o público, num compartilhamento poético performático, que transforma e ressignifica o lugar e sua história.


sábado, maio 05, 2012

Das pedras

Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras
Foto: Carolina Simiema/G1)
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no ato subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida...
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude 
dos meus versos



segunda-feira, julho 11, 2011

Dando nome aos autores

Há na internet uma ansiedade por compartilhar o mais rápido possível algo que nos comove, ou deixa indignados, ou diz algo sobre nós, e assim divulgamos num piscar de olhos textos, artigos, poemas, etc, sem nem questionar a autoria desse material. Pois, achando muito esquisito o jeito da Clarice Lispector num texto maravilhoso, mas que não me soava a Clarice, "Mude", descobri seu verdadeiro autor, Edson Marques, e seu irreverente blog. Dali por diante, toda vez que me soa muito estranho o título, o estilo, enfim, se algo me parece indicar que a autoria não condiz com o texto, dou uma boa investigada, e quase sempre descubro que não é mesmo!!!!! Encontrei uma lista no site Recanto das Letras, onde muitos desses textos estão com seus verdadeiros autores. Vale a pena dar uma olhada. Hoje mesmo descobri que circula um poema "Amor é síntese" atribuido a Mário Quintana, que na verdade é de Mirthes Mathias. Muito bonito por sinal... Mas senti  já no titulo do poema algo muito afirmativo pra ser de Quintana...


Anabel

domingo, julho 03, 2011

Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza





Álvaro de Campos

sexta-feira, outubro 22, 2010

Gibrando aos 46

Caminho para sempre nestas praias
Entre a areia e a espuma.
Gibran Khalil Gibran - "Arei a e Espuma"
A maré alta apagará minhas pegadas.
E o vento dissipará a espuma.
Mas o mar e a praia permanecerão
Para sempre.
____________________________

Uma vez, enchi minha mão de neblina.
Depois, abri-a; eis que a neblina era um verme.
Fechei e abri novamente minha mão, e lá estava um pássaro.
E novamente fechei e abri minha mão, e em seu côncavo, erguia-se um homem de face triste, virada para cima.
Fechei minha mão mais uma vez e quando a abri, não havia nada senão neblina.
Mas ouvi uma canção de inexcedível doçura.
________________________________

Coisa estranha, o desejo de certos prazeres é uma parte de minha dor.
________________________________

Um senso de humor é um senso de proporção.


Gibran Khalil Gibran, in "Areia e Espuma"


Há tanto tempo não lia Gibran! Reencontrá-lo neste momento de reflexão em que me olho quase aos 46 parece tão providencial. É tão iluminador que me dá vontade de blogar o livro todo, que é desejo de devorar no contentamento de reconhecer-me, mas também de degustar lentamente na simplicidade profunda dos insights, lampejos internos.
Também reencontrei Hermann Hesse e sua "Arte dos Ociosos", trazendo a vitalidade do corpo, as indagações do espírito, e celebrando a indissociabilidade desses aspectos do humano. E agora me assopra a memória Walt Whitman, com quem vou me reencontrar daqui a pouco dizendo que a alma é o corpo e o corpo é a alma, sem tirar nem por.
E penso nessa minha trajetória bailarina... e no desapego que necessito para dançar em novos horizontes que inevitavelmente vem surgindo.
Não necessariamente às reviravoltas, mas certamente a grande lei sempre se cumpre: MUDANÇA. 
E continuo me atrapalhando com alguns passos...


Anabel

sexta-feira, julho 09, 2010

Língua Mãe

Não sinto o mesmo gosto nas palavras oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto  que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque eu não tenho amor pela língua de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço registro porque tenho a estupefação de não sentir com a mesma riqueza as palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
Nela o menino que ia de tarde pra debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe.


Manoel de Barros, em O fazedor de amanhecer, ed. Salamandra

sexta-feira, agosto 14, 2009

A arte de ser feliz

Cecília Meireles

Houve um tempo em que
minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

_______________________________________________

Às vezes achamos que é preciso fazer muito esforço para merecermos ser felizes, e nem nos permitimos olhar para essa generosidade que palpita nas coisas simples... o sentido de espaço sagrado... mas ela está lá, aí, aqui, em voce, em mim, em nós, em tudo. Somos poeira de estrelas.
Anabel

terça-feira, agosto 14, 2007

Narciso e Narciso

Ferreira Gullar

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é

como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.

E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado

- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora

se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam

que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.

Imagem: Narciso de Caravaggio
Emprestei do site do Ferreira Gullar