Bota pra tocar

sexta-feira, maio 29, 2009

Ando buscando minha pele de foca. Ainda não sei onde está escondida, mas sinto que está na hora de vestí-la novamente, voltar para o meu lugar mais essencial, meus valores mais fundamentais. Mas como é difícil cavar um espaço-tempo no cotidiano, depois de anos ocupando cada brecha em função de manter as coisas funcionando, como se o natural fosse consumir-nos trabalhando para apenas poder participar, mesmo que à margem, dessa idéia de segurança, sucesso e felicidade, que é só uma fachada para a sociedade de consumo.
É uma escolha que exige uma perseverança danada: assim como para largar um vício, também para adotar um novo hábito... uma nova atitude. Um dia de cada vez, com serenidade, coragem, persistência, porosidade, e fé no invisível.
Há um lugar em mim que merece minha atenção. Há uma fome de mim em mim, uma vontade de ser meu amor me nutrindo de mim, um desejo de apenas ser eu, sem justificar essa solidão e essa multiplicidade de eus que carrego em minhas células. Um lugar onde minha dança é só minha dança, minha música é só minha música, meu gozo é só meu gozo, e, dessa forma, de todo o universo.

sexta-feira, maio 22, 2009

O tempo transcorrido nunca é tão curto a ponto de permitir que aquele que perguntou e aquele que respondeu permaneçam, no momento em que chega a resposta, os mesmos seres que eram quando o relógio foi posto para funcionar. Como diz Franz Rosenzweig, "a resposta é dada por uma pessoa inevitavelmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta, e ela é dada a alguém que mudou desde que perguntou. É impossível saber a profundidade dessa mudança". Fazer a pergunta, esperar a resposta, ser indagado, esforçar-se para responder - isso é que fez a diferença.

in Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman, RJ, JorgeSahar ed., p.34

domingo, maio 17, 2009

Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos

"É mais prudente uma sucessão de encontros excitantes com momentos doces e leves que não sejam contaminados pelo ardor da paixão, sempre disposta a enveredar por caminhos que aprisionam e ameaçam a prontidão de estar sempre disponível para novas aventuras. Bauman mostra que estamos todos mais propensos às relações descartáveis, a encenar episódios românticos variados, assim como os seriados de televisão e seus personagens com quem se identificam homens e mulheres do mundo inteiro. Seus equívocos amorosos divertem os telespectadores, suas dificuldades e misérias afetivas são acompanhadas com o sorriso de quem sabe que não está sozinho no complicado jogo de esconde-esconde amoroso.

A tecnologia da comunicação proporciona uma quantidade inesgotável de troca de mensagens entre os cidadãos ávidos por relacionar-se. Mas nem sempre os intercâmbios eletrônicos funcionam como um prólogo para conversas mais substanciais, quando os interlocutores estiverem frente a frente. Os habitantes circulando pelas conexões líquidas da pós-modernidade são tagarelas a distância, mas, assim que entram em casa, fecham-se em seus quartos e ligam a televisão."

Trecho do ensaio de Gioconda Bordon sobre o livro de Zigmunt Bauman, Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

sábado, maio 16, 2009

paradoxos da vida


Outro dia, levando Laila para a escola, no trânsito, ela observou:
- Olha, um carro sem teto!
- É mesmo, filha, é um carro conversível! - disse eu.
- Conversível porque ele conversa? - perguntou curiosa.
Aí eu derreti, que delícia ter uma pergunta dessa no meio da vida!!!! Que delícia as tantas observações e questões dessa minha pequena notável. Alimento para a alma! Obrigada, Universo!!!!!!!!!! Grata, muito grata!

segunda-feira, maio 11, 2009

Discurso de Augusto Boal

Discurso de Augusto Boal
Dia Mundial de Teatro - 27 Março, 2009
Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma
reunião diplomática – tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos
incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros
com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de
mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo
com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal

quinta-feira, maio 07, 2009

Perdoar


Outro dia, conversava com um velho amigo, e ele sugeriu que eu lesse "Mulheres que correm com os lobos". É um livro que me acompanha, e que tomo aleatoriamente em diferentes momentos a fim de ver o que ele vai sintonizar e me auxiliar a compreender melhor. Deixo que ele venha, ou procuro por ele sem muita linearidade, permitindo que se abra onde melhor o Universo possa me trazer um insight. Desta vez, acompanhando um movimento de libertação interna, abri no capítulo 12, "A demarcação do território: Os limites da raiva e do perdão". Que exatidão! Transcrevo o trecho final.

"Perdoar"
Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão "final" não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar e o ritual a ser usado para assinalar esse evento. É você quem resolve qual é a dívida que você agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: liberando a pessoa de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito e que a compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a pessoa sem que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar o outro com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são relativamente leves. Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda compassiva ao ofensor por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas, sim, ser sensível a partir de uma postura de compaixão, segurança e preparo.
O perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e o esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria frieza. Uma forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o que significa deixar de mantê-lo à distância, de ignorá-lo, de agir com frieza, condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir como um robô insensível.
O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chance - começa tudo de novo se acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar mais algumas chances, dar muitas chances, dar chances só se... Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.
Como a mulher sabe que perdoou? Voce passa a sentir tristeza a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Você não quer nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá longe até aqui. Você está livre para para ir e vir. Pode ser que tudo não tenha acabado em "viveram felizes para sempre", mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo "Era uma vez" à sua espera.

in: Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem; Clarissa Pinkola Estés; RJ, Rocco, 1994

sábado, maio 02, 2009

Virada no Jardim da Luz


Uma instalação imperdível nesta Virada Cultural, é a que a Cie. Carabosse, francesa, realiza no Jardim da Luz, das 22h do dia 02 à 1:30h do dia 03.
O parque já é lindo por si, mas à noite com a claridade do fogo iluminando os caminhos, o lago e recriando espaços, os músicos criando trilhas, e as engenhocas usando água e fogo, a atmosfera é quase surreal. As crianças também ficam encantadas, levem-nas junto!
Aliás, há várias performances inusitadas vindas da França, homenageada da Virada deste ano. Bon apetit!

sexta-feira, maio 01, 2009