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terça-feira, outubro 16, 2018

"Além da expansão dos desertos" no Espaço 8

Muito feliz por compartilhar este show com o público neste momento, tendo como título o poema que meu irmão Luiz Valentim me deixou como uma oração. Também estarei lançando o Sambinha Hai Kai, que é uma parceria com outro irmão de alma e música Álisson Lima.
E estamos despertos! 
Espero vocês por lá!

Pocket show dia 20 às 18h 
Oficina de percussão corporal e recursos vocais dia 27 às 11h

Espaço 8
Rua Juquis, 287 - Moema - Metrô Eucaliptos linha lilás 
próximo ao Shopping Ibirapuera




Nas estradas que trilhamos a todo momento abrem-se fendas, aprofundam-se abismos, multiplicam-se precipícios, expandem-se os desertos.
Mas como sabemos que o que vivemos não é fantasia ou lenda, nos flagramos despertos, além da expansão dos desertos.
E certos do norte que perseguimos, insistimos e nos forjamos corajosamente guerreiros.
Forçosamente milagrosos.
Milagrosamente fortes.
E estamos despertos
Além da expansão dos desertos.

Luiz Valentim (in memorian)

sexta-feira, setembro 15, 2017

Enfim a minha estreia cantautoral!


É com muita alegria e coragem que convido para meu show Além da expansão dos desertos" onde apresentarei composições próprias e parcerias em poemas e cantorias ao violão, cavaquinho e piano, com participações especiais de Lucimara Bispo, Jamil Giúdice, Daniela Lasalvia e Swami prem Suresh.




segunda-feira, maio 14, 2007

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, p.124


Este poema foi interpretado por Maria Bethânia no álbum Nossos Momentos (1982), mas eu o conheci na interpretação do meu irmão Luiz. Luiz Claudio Valentim. Foi um cataclisma emocional recebê-lo assim: olhando direto em meus olhos aqueles olhos faiscantes, direto em meus ouvidos seu vozeirão grave e profundo. Era pra mim. E era tão verdadeiramente ele, que eu juraria que era ele o autor! Inesquecível. Intraduzível. Intransferível.

A interpretação de Bethânia é esplêndida, e aí vai um link, caso você queira ouví-la, e arrepiar-se. Mas no meu coração, na minha alma, nas minhas vísceras, é a reverberação e a interpretação contundente na voz do Luiz que ouço.
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Em Asas do Desejo (Win Wenders, 1987), um anjo decide tornar-se mortal para poder sentir como um humano, e viver sua paixão por uma trapezista, assumindo todas as conseqüências de sua escolha. Achei de uma beleza!

foto: Bruno Ganz em Asas do Desejo, dir. Win Wenders, 1987

segunda-feira, fevereiro 12, 2007


A mente ou o corpo?


Qual dos dois está mais quente mais freqüentemente?
Quem fala mais alto?
Quem é mais obediente?
Qual dos dois é mais exigente?
O corpo ou a mente?
Qual dos dois é mais carente?
Qual dos dois é mais coerente?
Quem afirma? Quem desmente?
Quem é culpado? Quem é inocente?
Afinal de contas, quem faz essa bagunça na vida da gente?


Luiz Valentim (meu irmão, in memorian)
SP, 1993

sexta-feira, dezembro 22, 2006



É madrugada
é ela, gelada
a negra madrugada

e quando eu menos espero
explode a gargalhada
aquela que faz com que escorra
do canto do olho
uma lágrima roubada

aquela gargalhada atrevida
que rouba o espaço do choro
e explode embriagada
na calada da oportuna madrugada

A cúmplice madrugada
que nunca diz nada
mas contempla a tudo
como se tudo aquilo
não fosse nada

E ali, parada, gelada
é uma porrada
no olho do coração do poeta
que sozinho dentro dela
se embriaga de paixão e de cachaça

Tudo isso no meio da praça
sozinho
no meio da madrugada

Luiz Valentim

sexta-feira, dezembro 08, 2006


Numa noite dessas atrás
me peguei sozinho comigo
Foi tanto digo, não digo
Falo, me calo

Enchi o saco comigo
E me embriaguei de mim
Então me coloquei de castigo

Frente a frente no espelho
Olho no olho, cega a visão
Um era imagem
O outro só coração.

Os dois se olharam longamente
E a mente pediu decisão
Decidi: vou sair pra beber
Que eles se olhem até que se vejam ou não.

Porque tudo que eles possam descobrir
Tudo que possa surpreendê-los
Não passam de pelos, pele e pano
Envolvendo um ser humano

Que é certeza e é desengano
Que é flor e é capim
Apenas um ser humano
Que não passa de mim

Luiz Valentim