"É madrugada, é ela gelada... pensei que blues fosse sempre azul, mas ele é o negro blues... numa noite dessas atrás me peguei sozinho comigo"... Ouço sua voz. Dentro de mim ainda ressoa teu timbre. Por todos os séculos antes e depois do nosso encontro, ressoa. O nosso encontro ressoa. Espero que vc esteja bem. E quando eu for, venha me buscar na porta, pode ser?
Agenda de performances, improvisações, lives, apresentações e espaço para considerações sobre atitudes cotidianas e suas reverberações no planeta. Bem vindo, bem vinda, bem vinde!
sábado, maio 04, 2013
Carta pra Luiz Claudio
Eu quero tudo de novo. Quero cantar com vc, tocar piano noite adentro inventando milhares de vezes nossos mundos blues, nossas gargalhadas, confidências inconfessáveis, o não medo de falar do que não é positivo, mergulhar nas sombras e dar rasantes saindo rumo a ensolarados insights de humanidade. Como eu sinto tua falta, meu irmão. Sinto tanto tanto tua falta neste mundo facebook, onde a gente compartilha tanta coisa, mas não o mergulho na nudez do aqui agora... tudo mentalbook, shortbook, alrightbook, líquido, líquido, líquido. Ninguém mais chora, não muito, pois tudo muda, bola pra frente, transmuta-se, ou melhor, diz-se que se transmuta, sem nem bem viver a dor. É tudo meio batata smiles... sem silêncios Miles, nem menos. Tudo mais, positive vibration, passa para outra, a fila anda, nada pode me atingir... irreais e fugidias experiências que não devem tirar ninguém do foco e do eixo.
terça-feira, abril 16, 2013
Coisas da Vida
Quando eu era (ou estava) jovem - entre 17 e 28 - me permiti fazer algumas aventuras, e muita gente ficou falando que eu era irresponsável, que eu tinha que voltar, o que os outros vão falar, que seria do meu futuro... Mas eu precisava viver aquela intensidade, tinha a sensação de que aquilo era um tesouro que eu teria para sempre na minha experiência. E com a consciência de minha divindade, nunca fui em busca de autodestruição, "apenas" aventura, algum risco, passos no desconhecido, no vir a ser. Claro, que uns bons porres fizeram parte...
Bem, talvez meu futuro daquele tempo, que é meu presente, não tenha sido tão confortável quanto de tantas pessoas que preferiram garantir suas contas, e confesso que é duro ter que matar uns leões por dia, e ter incertezas financeiras quase aos 50! Será que vai rolar show, corre atrás daquele edital, oficina de vez em quando...
Mas aqueles momentos, aquelas passagens atrevidas, aquelas cantorias na rua de madrugada, beijos sob a garoa, semanas acampados comendo alga e peixe, aquele roteiro na sorte do próximo trem que partir, dançar no túnel, amar ao por do sol na praça, na praia, na rede, no mato, na canoa, no carro, dançar com o vento, o corpo nu, o ventre prenhe, caminhar na tempestade à beira mar, são momentos que eu trago como um gosto tão suculento e doce da vida, como se fossem pedras preciosas da Rede de Indra que é a vida, que me conecta eternamente a cada pessoa com quem os compartilhei.
E vejo que foi bom não ser tão responsável e obediente e previdente.
Na verdade, a gente precisa de tão pouco pra ser feliz, mas pode acontecer de ficar correndo atrás da ilusão de corresponder ao status quo... e não ter um prazer genuíno sequer, a não ser aquela fachada, aquele facebook cheio de postagens de estereótipos e chavões otimistas que não são vivenciadas no dia a dia.
Enfim, não tem fachada que possa proporcionar os ecos de uma verdadeira experiência.
A energia que reverbera daquelas experiências ainda faz tudo ganhar um sentido bem mais profundo. A vida sem risco seria um fiasco...
Coisas da vida!
Coisas da vida!
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
Passagem
| Sisifo, de Tiziano 1549 |
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Sobre a morte e o morrer - Rubem Alves
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
texto colhido em
http://www.unimed.coop.br/pct/index.jsp?cd_canal=54440&cd_secao=57347&cd_materia=334519
- Muito me alivia saber que meu pai teve três lindas mulheres para lhe dar colo na passagem. Amor, carinho, luz e certeza de trilhar novos caminhos em liberdade. Adri, Ane e Fernanda. Nada de tubos e mais remédios. Gratidão, gratidão, gratidão.
quarta-feira, outubro 10, 2012
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