Bota pra tocar

terça-feira, dezembro 26, 2006

Tantra

Para ler, pensar, praticar e crescer: http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=3828&onde=2 "Sobre Sexo", por Deborah Valente B. Douglas.

Feliz Natal!

sexta-feira, dezembro 22, 2006



É madrugada
é ela, gelada
a negra madrugada

e quando eu menos espero
explode a gargalhada
aquela que faz com que escorra
do canto do olho
uma lágrima roubada

aquela gargalhada atrevida
que rouba o espaço do choro
e explode embriagada
na calada da oportuna madrugada

A cúmplice madrugada
que nunca diz nada
mas contempla a tudo
como se tudo aquilo
não fosse nada

E ali, parada, gelada
é uma porrada
no olho do coração do poeta
que sozinho dentro dela
se embriaga de paixão e de cachaça

Tudo isso no meio da praça
sozinho
no meio da madrugada

Luiz Valentim

quarta-feira, dezembro 20, 2006


Vozes Bugras

Vozes Bugras surgiu de um trocadilho com o Mistério das Vozes Búlgaras, que não é mero acaso, como viemos a descobrir. A denominação depreciativa "bugre", dada aos indígenas brasileiros pelos colonizadores, provém do termo francês bougre, referente aos "hereges" búlgaros, resistentes à ocupação de seu terrritório em séculos passados, e extendeu-se a todo aquele que fosse considerado rude ou selvagem, em contraposição uma idéia exclusiva de civilização européia.

Daí nasceu o conceito fundamental da pesquisa de repertório em que mergulhamos, buscando resgatar canções, contos, ritos, mitos e lendas que remetem à nossa identidade bugra-cabocla-mulata-mameluca-cafusa brasileira.

O fato do grupo ser composto por mulheres levou-nos a refletir sobre as particularidades da identidade feminina no nosso legado cultural, de modo que neste trabalho tratamos também de render homenagem a compositoras e intérpretes que guardam, reinventam e simbolizam nossa bugridade mulher.

A seleção do repertório é bastante intuitiva, e nosso "terreiro" abriga de pontos do Candomblé a textos de autores modernistas, desde que o elemento circular e uma musicalidade ancestral estejam presentes e comovam. Além de violão, viola, percussão e canto, utilizamos instrumentos feitos com sucata, e a percussão vocal e corporal que trazemos de nossa experiência na Orquestra Orgânica Performática, criada por Stênio Mendes com a colaboração de Fernando Barba, mestres e parceiros de tanta música espontânea.

Nosso trabalho de recolher, acolher e reler o legado de antepassados, fundamenta-se no sincero desejo de contribuir neste momento de revitalização da cultura popular de raiz, reconhecendo a espiritualidade ancestral que nela se mantém sempre atual, renovada, dia a dia, em compaixão, força, e sabedoria.

Saravá, bugres do planeta!
Imagem: "Menina sentada" de Cândido Portinari
NOP - Núcleo Orgânico Performático

O Núcleo Orgânico Performático é formado por músicos, atores, artistas plásticos, dançarinos, terapeutas, pesquisadores e educadores, reunidos num trabalho experimental, utilizando as sonoridades orgânicas do corpo, através da percussão corporal, da exploração de recursos vocais, e instrumentos sonoros feitos de materiais alternativos. Busca resgatar uma musicalidade instintiva, criativa e lúdica, chamada "música espontânea"*.

Atualmente o NOP consolida-se num processo de auto-gestão. Seus integrantes são: Anabel Andrés, Andréa Pimentel, Daniela Lasalvia, Jamil Giúdice, Lila Natal, Mauro Nascimento, Sandro Dozena, e Ully Costa. O grupo conta com a criação de instrumentos alternativos da Luthieria do Reciclável, de Jamil Giúdice.

Originou-se na Orquestra Orgânica Performática, criada no ano 2000 pelo músico, compositor, e pesquisador da música corporal Stênio Mendes, com a colaboração do também músico, multiinstrumentista e pesquisador da música corporal, Fernando Barba, na Universidade Livre de Música Tom Jobin - Brooklin / SP, como núcleo de experimentação artística e pedagógica, com o objetivo de transformar cada membro num agente multiplicador da proposta de utilizar os recursos da percussão vocal/corporal, e estimular a investigação de materiais alternativos e suas possibilidades sonoras.

O Núcleo Orgânico Performático, tem se apresentado em diversos eventos com o foco nas questões éticas, ambientais e sociais, em teatros, ONGs e escolas, entre eles Teatro São Pedro, Crowne Plaza, UNESP, Instituto Ghoethe, Escola Suiço-Brasileira, União Cultural Brasil Estados Unidos, Centro Cultural Monte Azul, Centro Cultural São Paulo, SESC, MASP e outros.
Permita-se contagiar por esta aventura musical!

* Música Espontânea é um conceito musical que vem sendo desenvolvido e divulgado desde os anos 80 por Stênio Mendes e Djalma Corrêa, que se baseia na capacidade de improvisação e experimentação de uma musicalidade instintiva e essencialmente lúdica, cuja exploração de timbres e estéticas não convencionais, remetem a expressões musicais de povos primitivos, e tradições milenares, possibilitando uma profunda vivência da individualidade criativa, e da interação musical em grupo. Uma das principais referências iniciais dessa proposta encontra-se na escola do ator, cantor e pedagogo alemão Theophil Maier.


segunda-feira, dezembro 18, 2006


Queda muito livre


É o abismo, a vida que se abre, sem garantias, sem cabo de segurança, sem para-quedas, mas sim!, há pistas. Para que a queda possa ser mais que vertigem, possa ser mergulho, é preciso estar atento a elas. Algumas são gritantes, outras tão sutis que qualquer sentido menos aguçado pode deixar escapar.
É a opção de cada instante tornada degrau, trampolim para saltos desafiadores e vôos, pois nesta queda pode-se escolher a direção para onde vai o corpo, que é também, lembremos, o próprio autor da trajetória que nele se registra, marcas que nem todos admiram, nem se orgulham de ostentar.

Ainda ontem achei que ia me estatelar, mas hoje já estou aprendendo a planar melhor. O lance é não ficar olhando pra baixo, manter os olhos no horizonte, percebendo tudo à volta. Um sorriso interno como o de Budas ou Monalisas, cenho aberto, mandíbula livre, diafragma indo e vindo com o fole-go, ventre vivo.
É preciso deixar o que passou ser passado. Deixar sua ressonância se esvanecer até soar outro tom, abrir outro ritmo, desenhar outras melodias, que mesmo fazendo o que passou ecoar por simpatia, nos tragam outros vislumbres sobre aquilo que lá tecemos e nos teceu. Harmonizar.

Continua a brincadeira, a aventura, a jornada do herói que cada um ainda pode ser (não necessariamente para exposição pública), para simplesmente não adoecer de amargura e tristeza.
Parece incrível que sempre "ainda dá tempo". Mas é isso mesmo! Sempre! Ainda dá tempo. Mesmo no último suspiro desta existência. Um cuidado: ah, vaidade! Uma chave: humildade.

Experimentar lançar-se no abismo do novo, é das coisas mais doloridas e gozosas que conheço. Diz a voz:

- Deixe os julgamentos para os que nunca se atrevem a chegar à beira, despeça-se - cordialmente, se possível - e, corajosamente, abrace o vazio à sua frente. Deixe as lágrimas lavarem o peito e a alma. Chore mesmo, sem vergonha, cerimônia, nem timidez. Esperneie até sentir a substância do ar sustentar e embalar. Respire fundo.
Agora é você e o infinito inominável.

Eu vou.

Anabel

Imagem: "Light turbulences" by Mario Ramiro

quarta-feira, dezembro 13, 2006



História extra-oficial de estradas, estragos, espíritos e estréias extraordinárias
(uma misteriosa missiva)

Estraguei o astrágalo destro em estroinices estressantes pela estrada de Istambul. Entretanto, ainda estrincando tendões, sinto-me exultante qual estringídeo estrênuo, e do que resta de uma estrebaria, transmito, sem a estúpida estima por um estilo estreme, o estapafúrdio acontecido...
Estranhas extremidades estremecendo estrondosamente como estrelas, extrapolam os extremos da estratosfera. Extraordinariamente, estralam e estrilam estroboscópicos astros, extraviando estrangeiros extremosos em extravagantes esteiras, estereotipadas e estropiadas, entre estratos-nimbus.
Entrementes, estripadores estréiam do estrume estradeiro, cujo extrato extirpam estrangulando ditadores extraditados na extrema-unção.
Um extraterrestre estarrece-se ante o estertor extraído de um extremista exterminado em Estremadura, na Espanha, que externara estridente, extremamente extrovertido e estrito:
- No estribo! Estricnina! Extra-strong!
Por estripulia, o extragaláctico estria a estrofe em estribilho – um estropício! – estrobilando-se aos trilhões, feito estreptococos estruturados, extrínsecos e estrábicos.
De súbito, a estratopausa estrepita, e histriônicas naves extravasam por estreitos estratégicos, estraçalhando toda estratocracia terrestre através da extrusão estrambótica de estrôncio e estragão.
Em meio à histeria, um estrondo, e então estrorsos extremados extendem-se como extrofia de músculos estriados transformando-nos em estranhas flores estroprogestativas.
- Se nos esfregarmos e estrigarmos ao extremo, nos estrepamos!
Mas o estro extremal explode em êxtase, e ao som de um estrídulo Stradivarius extra-sensorial esprememo-nos e espraiamo-nos sob o esplendor estrelado de um céu expatriado, estrado espiritual para um existir espantado, extracardíaco, extraconjugal, extracorpóreo, extracranial... Extracurricular...


P.S.: Que experiência! Espero que estranhe e escreva-me!
Anabel Andrés

sexta-feira, dezembro 08, 2006


Numa noite dessas atrás
me peguei sozinho comigo
Foi tanto digo, não digo
Falo, me calo

Enchi o saco comigo
E me embriaguei de mim
Então me coloquei de castigo

Frente a frente no espelho
Olho no olho, cega a visão
Um era imagem
O outro só coração.

Os dois se olharam longamente
E a mente pediu decisão
Decidi: vou sair pra beber
Que eles se olhem até que se vejam ou não.

Porque tudo que eles possam descobrir
Tudo que possa surpreendê-los
Não passam de pelos, pele e pano
Envolvendo um ser humano

Que é certeza e é desengano
Que é flor e é capim
Apenas um ser humano
Que não passa de mim

Luiz Valentim

quarta-feira, dezembro 06, 2006




Fiat Lux
à que brilha dentro
Fazia tempo que as coisas estavam assim, acontecendo à deriva, sem rumo certo, sem decisão e clareza. A cabeça em turbilhão. Parecia uma outra pessoa, daquelas pesadonas que amarram o passo da gente quando a gente tem pressa de ir.
Antes tinha essa coisa de acreditar na vida só por si, de se jogar no momento e ver que "o melhor lugar do mundo é aqui e agora", como o Gilberto Gil antes de entrar para a política (tradicional) cantava.
Agora, tinha tanta coisa meio triste dentro, que, se não tivesse sol, era melhor nem deixar o corpo muito tempo deitado, que ele podia não querer mais levantar. E a cabeça é que era o cinza do dia em forma de desencanto cerebral.
Mas tinha, sim, muita razão pra sorrir. No entanto, os sentimentos turvos andavam emergindo de tão longe pra serem filtrados - talvez!? - que acabava quase não rolando um riso solto no meio do caos e do cansaço pela limpeza pesada que dentro se dava.
Pensou que a vida só ganha sentido no sentido que o outro compartilha, porque ficar vivendo só pra si, em total isolamento, só tem significado se daí algo pro outro também brotar. O outro pra alguns pode ser Deus. Podem ser deuses, deusas, pessoas, bichos, plantas, outros de todos os tipos... senão pra quê?
Olhou a caneta e o papel, sentiu um pouco de preguiça pensando na rabisqueira que o computador evitava (mas o computador também tinha ido embora). A caneta. O papel. O zero. Total.
Zero gerando o infinito. A vontade ainda estava rala, mas tinha uma quase obrigação que movia a mão na caligrafia, procurando salvar pelo menos uns poucos pensamentos do abismo do esquecimento.
Se pudesse sair dançando enquanto escrevia, seria perfeito! O corpo ia despertando, assim, da letargia, com cada jorro-sentença, por mais tola que parecesse ou soasse. Ainda havia a fresta da palavra escrita pra iluminar o dia cinza da cabeça.
E escreveu, pensando: no princípio era o verbo.
E fez-se a luz.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Aprender a dançar



dedicado a Penha de Souza


Mais que uma excelente instrutora, uma mestra é o arquétipo da mãe. Não se limita a transmitir conhecimentos a seus pupilos: proporciona-lhes, a partir da sua própria, uma experiência que transcende o domínio técnico da disciplina que professa. Nutre sua existência. Encoraja-os a crescer, desenvolver, e reconhecer suas potencialidades únicas, ampara suas quedas, mas também aponta inconsistências a serem melhor trabalhadas, e exige, sem falsa brandura, dedicação e esforço para transpor os limites do cômodo e do medíocre, não como juiz ou feitor de escravos, mas como o clown que suscitando o riso faz ver de modo cortante a profunda fragilidade da condição humana. Não carece de ostentação ou insinuação. É um ser humano com erros e acertos, alegrias e tormentos como qualquer outro, cujo grau de consciência, no entanto, o transforma em referência fundamental a quem por seu caminho passa. E desse encontro em diante não é possível voltar ou continuar a viver na superfície daquilo a que antes se podia chamar vida. O que se transforma é a nossa compreensão, nossa visão de mundo, nosso modo de estar e ser.
Para compreender a dança, e particularmente a técnica de Martha Graham, é preciso desenvolver, além da espiralada consciência corporal, a coragem de vivenciar profundamente a angústia e o prazer de estar vivo. Não há como decifrar esse código, assim como não é possível fazer arte de espécie alguma, sem a experiência do tesão e da dor. E essa dimensão do dançar se descortina àqueles que ousam mergulhar em si mesmos para além do espelho, numa busca incessante de apreender e fluir com o sentimento do corpo, que "inclui e é o significado, a idéia mestra, e inclui e é a alma", nas palavras do poeta Walt Withman.
Quando despertamos para o movimento do universo em cada um de nós, é disso que se trata: de transcender o espelho. E é isso que Penha de Souza vem fazendo ao longo de sua vida, despertando consciências que são corpos e universos. Espirais. Movimento.
É um enorme privilégio aprender de Martha Graham a Yin e Yang através de Penha de Souza e seu legado artístico, e uma grande responsabilidade fazer jus a isso como artista. Não encontro adjetivos, superlativos ou definições à altura da humanidade de Penha, nem tampouco do prazer de ter meu corpo - minha vida - tocado por essa grande mulher. Talvez a melhor expressão e síntese do que estou tentando dizer com tantas palavras, e que também represente o sentimento de meus companheiros de aprendizado, seja:
- Toda gratidão e respeito a você, Penha, mestra querida. E o mais profundo amor à pessoa maravilhosa e íntegra que você é, e nos incita a ser.

"Immota labascunt et quae perpetuò sunt agitata, manent."
(O que é rígido desaba e o que está em constante movimento persiste.)
James Boswell (1740 - 1795)

domingo, dezembro 03, 2006

O divertido é decidir que, - sabendo da desimportância da existência ou não de deus na responsabilidade pelos atos com que vou construindo-me mulher, - justamente nos momentos em que não há a culpa, mas o júbilo talvez excessivo, que pode tornar-se a mais descabida vaidade, por saber que fui eu quem optou e agiu, momentos de decisão após angustiada escolha, decidir que sendo eu a criadora desse deus, sendo minha existência precedente à sua moral ou essência, quero-o.
Não é uma fé num deus que me precede e comanda, mas num que crio e se torna tão poderoso e divino em mim, que me torna parte de si, porque eu o escolho sem obrigação de fazê-lo, sem castigos, caso não o faça, sem "a priorismo" de suas palavras, sem melodrama ou visões delirantes.
E a esse deus que escolho, chamo amor. Amor é meu Deus. Porque o escolho e faço assim. E assim ele se faz em e através de mim, que não sou deus nem nada. Nem nada. E os sou.